12. Doação/Alemanha

Depois de ter que desembolsar 80 euros (R$ 260) para comprar um novo carregador de Mac Book, resolvi tentar recuperar parte do dinheiro. Como? “Doando” sangue. Doo sangue desde os 18 anos e tenho no meu histórico seis doações — média de uma doação a cada seis meses. Mulheres podem doar a cada três meses, mas preferi manter um intervalo maior. No Brasil, o Hemorio faz campanhas para atrair interessados, que têm direito a um lanche no local — normalmente, pão com queijo e algum suco. Não é recomendado doar sangue em jejum. Já hospitais particulares recebem parentes e amigos de internados para repor o banco de sangue. Também há comida no local.

O questionário respondido por mim no Núcleo de Hemoterapia Zona Sul – Instituto Nacional de Cardiologia, em Laranjeiras, antes da doação — cujas perguntas são reforçadas pelo médico — perguntava o número de “parceiros sexuais” nos últimos 12 meses, se estou grávida, se posso estar grávida, se já fui a “casa de massagem”, se transei com pessoas do mesmo sexo, se usei drogas, se compartilhei seringa, etc. Doei três vezes lá. Quando fui próximo ao Dia Nacional do Doador Voluntário de Sangue (25/11), ganhei blusa da campanha de incentivo à ação; noutra vez, agenda e caneta. Já no Gávea Medical Center, menos perguntas foram reforçadas pela médica, e eu quase fui impedida de doar os 450 ml — já no Hemorio, eles coletam 400 ml — por ter dormido menos de quatro horas na noite anterior. Ganhei lanche, mas mesmo sendo dia 25/11 não recebi presente. A folha abaixo é do Gávea Medical Center.

Minha primeira doação de sangue na Alemanha foi em maio de 2013. A Deutsches Rotes Kreuz (Cruz Vermelha Alemã) foi à universidade onde eu fazia o intercâmbio. Ganhei um Kinder Ovo e preenchi o formulário. Depois conversei com um médico, que furou a minha orelha para o teste de anemia. No Brasil, sempre furam o dedo. Ele também reforçou algumas respostas. Em seguida, fui para outro médico, que me liberou para marcar se eu considero o meu sangue confiável e doar os 500ml. No local também havia lanche para os doadores. Pão, geleia, suco… Antes da saída, eles deram uma sacola com lápis, borracha, caneta, pastas, régua e cadernos. Algumas semanas depois recebi um papel avisando que tudo tinha dado certo com a doação.

Eu não sabia, mas boa parte do sangue recolhido pela Cruz Vermelha Alemã é vendido no mercado nacional e internacional. Além disso, a Cruz Vermelha Alemã tem lojas — uma delas no centro de Kassel –, onde vende roupas, calçados, brinquedos que foram doados para a organização por um preço não muito barato. Isso a confederação contra a pobreza Oxfarm — que também tem uma loja em Kassel — também faz. Muitos criticam.

1000 Euro für fünf Liter Blut

Beherrscht das DRK den Blutmarkt?

Porém, por aqui também se pode ganhar dinheiro pela “doação” de sangue e plasma. E isso é motivo de crítica de um dos diretores do serviço de doação da sangue da Cruz Vermelha Alemã, Jürgen Bux. Ele é contra o pagamento de 26 euros feito pela Mainzer Universitätsmedizin (Universidade de Medicina de Mainz) por cada meio litro de sangue. Também alegou que se a pessoa é paga, isso não é doação. Aqui em Kassel, o “doador” de sangue recebe 20 euros (R$ 65) no Blutspendezentrum am HoPla (centro de doação de sangue localizado na Holländischer Platz) por 500 ml de sangue. O valor pela “doação” de sangue costuma variar entre 15 e 25 euros (R$ 49 e R$ 82). Se tudo der certo, a pessoa também pode “doar” plasma no máximo duas vezes por semana. Cada “doação” de plasma vale aproximadamente 30 euros (R$ 98). Bebidas não-alcoólicas são oferecidas aos doadores.

Rotes Kreuz will bezahlte Blutspenden abschaffen

Antes de fazer a “doação” é preciso se cadastrar (é necessário ter um documento com endereço na Alemanha) e responder a perguntas — desta vez não tão inconvenientes como as do Brasil. As mais tensas são: já injetou ou cheirou drogas? É alcoólatra? Já foi prostituta? Esteve presa nos últimos quatro meses? Para homens: já esteve em contato íntimo com outro homem? Para mulheres: esteve em contato íntimo com um homem bissexual nos últimos quatro meses? Teve contato sexual com as doenças AIDS e Hepatite ou pessoas do grupo de risco?

Depois, o “doador” conversa com o médico, que analisa se ele está em algum grupo de risco. Apesar de eu já ter doado sangue seis vezes, a mulher disse que meu sangue precisa ser avaliado antes. Segundo ela, por ter nascido e crescido no Brasil — mesmo que no Rio de Janeiro e nunca ter ido ao norte do país –, eu estou no grupo de risco da doença Malária. A análise pode demorar até uma semana, e aí sim a pessoa pode “doar” os 500 ml e receber o dinheiro.

Atualizado:
Segundo o resultado do Blutspendezentrum am HoPla, eu tenho malária. Mesmo sem ter qualquer sintoma, eu tenho malária. Mesmo tendo doado sangue seis vezes, sendo uma na Alemanha, eu tenho malária. Mesmo fazendo um exame de sangue por ano, eu tenho malária. Mesmo nunca tendo ido ao norte do Brasil — mas sim ao nordeste, como deixei claro na conversa com a médica –, eu tenho malária. Mesmo nunca tendo visitado qualquer área com ocorrência da doença mostrada no mapa abaixo, eu tenho malária. Ou talvez, como me escreveu meu tio, médico, mesmo tendo ocorrido a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha ainda quer sangue ariano. 

Reprodução/Wikipedia

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11. LGBT/Alemanha

Enquanto ocorrem os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, tenta-se chamar atenção para a lei que cerceia a liberdade dos LGBTs no país. Se um garoto não está vestido de “forma heterossexual suficiente”, isso já é motivo para agredi-lo. Se alguém exibe uma bandeira gay na rua, pode ser mais uma vítima de violência ou acabar enquadrado numa lei, em vigor desde junho de 2013, que proíbe “propaganda homossexual” para menores. Na semana passada, com a abertura dos jogos, o Google reforçou o posicionamento a favor dos direitos humanos. Exibiu o doodle com as cores do arco-íris. Mesmo antes de o grande evento começar, a pressão já vinha se intensificando. Vídeos da organização All Out, carta aberta de 20 escritores de 3o países, cerveja ganhou rótulo ironizando o presidente Vladimir Putin, etc.

O Brasil ainda está longe de ser exemplo em igualdade e direitos humanos. O deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) presidiu no ano passado a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Um paradoxo. Preocupados com o interesse do parlamentar Jair Bolsonaro (PP-RJ) em presidir a comissão, estudantes protestaram com um beijaço.

Já o material anti-homofobia, apelidado de “kit gay”, parece ter sido esquecido em 2011 pelo Ministério de Educação. O então ministro, Fernando Haddad, foi para a Prefeitura de São Paulo. O sucessor, Aloizio Mercadante, acaba de deixar o MEC para assumir a Casa Civil. Espera-se que o tão elogiado ministro José Henrique Paim se lembre do programa.

Dilma suspende ‘kit gay’ após protesto da bancada evangélica
Dois anos após veto, MEC diz que ainda ‘analisa’ kit anti-homofobia

Por aqui o projeto Schule der Vielfalt (Escola da diversidade) tem ganhado as páginas da imprensa alemã. A ideia é discutir sexualidade e trazer informações para formar jovens que aceitem o diferente. No próprio site, há vários arquivos com sugestões de aulas e textos para o debate — conteúdos em outros idiomas estão disponíveis. A princípio tudo tem corrido bem no estado Nordrhein-Westfalen, ainda que com a baixa adesão — sete escolas participam. Por outro lado, no estado Baden-Württemberg, uma petição reúne cerca de 190 mil assinaturas contra a inserção do ensino “sob a ideologia do arco-íris” nos princípios orientadores do plano de formação para 2015. Outra foi criada, mas pelo pessoal contra a petição anterior, ou seja, a favor da diversidade sexual, com aproximadamente 90 mil apoiadores. 

Jetzt reden wir!
“Wir haben keinen Bekehrungsauftrag”

Ainda sobre o assunto, vale lembrar que o Brasil não tem asilo para idosos LGBTs. Já existe nos Estados Unidos. Também existe na Alemanha. Até na própria capital. Segundo esta matéria, que despertou o meu interesse pelo assunto, na Argentina e em Portugal idem. Fica aí a dica para os empresários que quiserem investir no setor.

Comentário:
Trezentos e doze LGBTs foram assassinados no Brasil em 2013. É uma média de um assassinato a cada 28 horas. Divulgados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), os números podem até serem menores do que os do ano passado (388 mortes), mas ainda deixam claro a permanência do problema. Segundo os ativistas, “a falta de políticas públicas dirigidas às minorias sexuais mancha de sangue as mãos de nossas autoridades”. Fundador do GGB, o antropólogo Luiz Mott reforçou, ainda, a necessidade em criar um banco de dados nacional sobre crimes letais contra LGBT. O Ministério da Educação poderia aproveitar o momento em que o Facebook, finalmente, permite novos rótulos para gênero e orientação sexual — a princípio, só para usuários norte-americanos. Está na hora de trazer o assunto sexualidade para a sala de aula e, também, parar de ignorar o bullying.

10. Educação/Alemanha

O ano escolar mal começou, mas não é muito difícil prever como será a vida de professores e alunos de escolas públicas. Ônibus sem ar-condicionado e, a partir do próximo sábado (8), com passagem a R$ 3. Engarrafamento. Horas como sardinha enlatada para sair e chegar em casa. No calor da sala de aula, poucos estímulos para os estudos. Professores preocupados em como sobreviver. Alunos desmotivados para estudar e entrar numa universidade. A minoria pode pagar van ou ônibus escolar para garantir que os filhos cheguem à escola. Ou até “investir” R$ 2 mil por mês, fora os gastos com a compra de material escolar, na formação de cada filho.

Como já expliquei em parte há cerca de um mês, quando escrevi sobre Vestibular, o sistema educacional alemão é bem diferente do brasileiro. Aqui o exame decisório para chegar ao ensino superior é chamado Abitur. Apelidado de “Abi”, ele é composto de notas dos dois últimos anos do Gymnasium (ensino médio) e, também, provas finais nas turmas 12 ou 13. É com o resultado disso tudo que o estudante vai se candidatar a uma vaga de algum curso em determinada universidade. Mas muitos alunos são eliminados dessa corrida antes.

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Assim como no Brasil, aqui as crianças podem frequentar o Kindergarten (jardim de infância). Aos 6 anos, todas as crianças vão para a Grundschule (escola primária). Dos 9 para os 10 anos, as crianças recebem recomendações dos professores, baseadas nas notas e no desempenho em sala de aula. Nesta etapa, os pré-adolescentes são divididos, de acordo com o “nível”, em quatro grupos: Hauptschule (fracos), Realschule (razoáveis), Gesamtschule (bons) e Gymnasium (melhores). Emigrantes e filhos de emigrantes, até pela dificuldade em dominar o idioma, acabam caindo nas primeira e segunda opções. Essa separação é muito criticada por considerarem as crianças muito novas e imaturas para ter noção suficiente da importância dos estudos.

E, desde cedo, o futuro da maioria já está esboçado. Os alunos da Hauptschule terão menos anos de escolaridade e experiências na área na qual devem seguir. Para migrar para a Realschule, só com notas muito boas. Esse pessoal vai, profissionalmente, fazer pão, consertar carro, pintar parede, cortar cabelo de cliente, vender roupa em lojas, arrumar depósito, entre outras atividades. Também pode investir numa formação profissional, oferecendo a oportunidade de ser, por exemplo, cozinheiro (3 anos), fisioterapeuta (3 anos) e acompanhante de idosos (3,5 anos).

Já os dissentes da Realschule têm melhores chances. Caso tenham bons resultados, eles ainda têm chances de ir ao ensino superior por meio de uma Fachhochschule (FH), também chamada de University of Applied Sciences ou Hochschule. É quase uma Universität. A diferença é que lá o ensino é mais técnico, e a FH não oferece programa de doutorado, mas somente de bacharelado e mestrado. Se o aluno da Realschule optar por já parar os estudos mais cedo, ele pode ter o mesmo destino profissional dos da Hauptschule. O mais provável é que ele frequente escolas profissionalizantes e se torne vendedor de carros, secretário, personal trainer, consultor fiscal, carpinteiro, etc.

Enquanto isso, os estudantes da Gesamtschule seguem para a Berufsakademie (estudo profissionalizante). Assim como as FH, é uma mistura de teoria com prática. Tudo costuma durar três anos, sendo metade na sala de aula e outra meta na empresa. Não existe em todos os estados da Alemanha. Também semelhantes são as Verwaltungs- und Wirtschaftsakademie (VWA), que prometem, principalmente, um diploma com currículo mais prático. Desta vez é preciso pagar. A formação em Marketing da VWA, por exemplo, sai a 3.360 euros (R$ 11.013) ou a 24 parcelas de 140 euros (R$ 459). O estudante vai poder ser gerente de TI, projeto, logística…

O sonho de todos os pais é que o filho tenha um bom desempenho no Gymnasium e vá para a Universität (Universidade). Como dito no começo deste texto, uma nota no Abitur próxima a 1.0 conta muito a favor disso. Como a maioria esmagadora das escolas alemães são públicas e valorizam o desempenho acadêmico, os melhores estudantes e a elite da sociedade chegam à universidade. Novamente poucas instituições são privadas, que ficam longe de ser sonho de qualquer aluno. Mesmo cidades pequenas, como Tübingen (90 mil habitantes) e Heidelberg (140 mil habitantes), ambos no estado Baden-Württemberg, e Darmstadt (150 mil habitantes), no estado Hessen, são bastante procuradas. São das universidades e das FH que sairão os engenheiros, sociólogos, jornalistas, economistas e tantos outros da área de ciência.

Nas universidades alemãs, é cobrada uma taxa semestral, cujo valor varia de acordo com o estado. Como eu adiantei no post sobre transportes, o preço da Universität Osnabrück, em Niedersachsen, chega a 500 euros (R$ 1.658) — além do estudo e outros, já está incluso o transporte na cidade e trens regionais a cidades do estado, para Bremen e a locais na fronteira com o estado Nordrhein-Westfalen. Na Universität Kassel, no estado Hessen, porém, o valor fica em 261,11 euros (R$ 865). Noutros estados, os números podem cair ainda mais.

Além disso, o Bundesministerium für Bildung und Forschung (Ministério de Educação e Pesquisa) ajuda financeiramente estudantes em situações social e econômica a terminar os estudos com o popular BAföG. É comum aqui na Alemanha o jovem se mudar de cidade para frequentar a universidade, e o aluguel entra como mais uma despesa. Nem sempre dá para conciliar um Nebenjob (trabalho paralelo), ou isso não é suficiente, ou os pais não têm mais como investir no filho, etc. Estudantes casados com filhos recebem mais dinheiro. O estudante que se candidata a receber esse dinheiro precisa, depois dos estudos, devolver 50% do total recebido. Para quem, ainda assim tiver dificuldades em pagar as contas, há opções de empréstimo financeiro ligado ao mesmo ministério.

As profissões citadas para este texto foram baseadas na interpretação, a partir da página 14, de uma lista de profissões e o ensino necessário referente a cada uma delas.

Curiosidade:
Relatório do banco HSBC indica que, entre 13 países analisados, a Alemanha é o mais barato para intercâmbio. Austrália ficou como o país mais caro, seguido pelos Estados Unidos. Leia mais em: Der Spiegel ou a tradução.

Comentário:
Começou nesta segunda-feira (3) o ano letivo escolar. E que as aulas acabem logo! O mais importante de 2014 vem depois: a Copa do Mundo. É muito bom não precisar pensar em escola e professor. Sem ter que lembrar a falta de estímulos para seguir a carreira de docente. Sem ter que lembrar o preço da mensalidade da escola particular. Sem ter que lembrar o impacto da condição econômica no cotidiano dos brasileiros. Nada diverte mais do que uma tela de TV com alguns jogadores correndo atrás de uma bola. De preferência, bebendo uma cerveja gelada. Ou, quem sabe, uma ida ao estádio para assistir a algum clássico? Afinal, o Brasil só entende de futebol e mulher. Se der, a gente dá um esticada e pula logo para 2016, para as Olimpíadas. Menos preocupações com escola e professor. Menos preocupações com eleição. Menos preocupações com desigualdade social.

9. Política/Alemanha

A Presidência oficializou parte da reforma ministerial. O atual ministro da Educação, Aloizio Mercadantes, vai para a Casa Civil. O secretário-executivo do MEC, José Henrique Paim, assumirá o cargo. O secretário de Saúde de São Bernardo do Campo, Arthur Chioro, está cotado para o Ministério da Saúde. O jornalista Thomas Traumann substitui Helena Chagas na Secretaria de Comunicação. Na carta de demissão de Helena, respostas às críticas feitas pelo PT sobre a distribuição de verbas. As quatro mudanças estão programadas para esta segunda-feira (3).

Quiz: você conhece os 39 ministros de Dilma?
Dilma Rousseff empossa quatro novos ministros nesta segunda-feira
Em carta de demissão, Helena Chagas rebate críticas do PT

Muitos dos ministros deixam o cargo, porque vão disputar as eleições este ano. Entre eles, Gleisi Hoffmann, que concorrerá ao governo do Paraná, e Alexandre Padilha, que tentará a vaga de governador de São Paulo. Já em outubro, vamos votar para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Os eleitos terão um mandato de quatro anos — à exceção dos senadores, que têm mandatos de oito anos. De dois em dois anos, o Brasil enfrenta eleições. Há dois anos, em 2012, votamos para prefeito e vereador. Eles também têm mandatos de quatro anos.

A votação ocorre sempre no primeiro domingo de outubro do ano eleitoral. Caso haja segundo turno, a data fica marcada para o último domingo do mesmo mês. O eleitor precisa ir até a seção eleitoral dele (pode ser num shopping, numa escola), onde apresenta um documento oficial com foto. O mesário confirma as informações e pede para o eleitor assinar no caderno. Depois, o presidente de mesa digita o número do título de eleitor na máquina e libera o eleitor para votar. No fim do dia, a equipe da seção eleitoral imprime cinco vias do boletim de urna (BU). Uma delas fica pendurada em um lugar visível da seção eleitoral, na qual qualquer pessoa pode ver a quantidade de votos e justificativas de votos daquela urna eletrônica. Também estão na BU quantos votos cada candidato recebeu, quantos foram brancos, a que horas a seção eleitoral encerrou, etc.

Manual do mesário – Eleições 2010

Recentemente, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, também propôs novos ministros, que são indicados e demitidos pelo presidente, Joachim Gauck. O resultado das eleições de setembro de 2013 deixou o partido FDP de fora do Bundestag. O Bundestag é a câmara baixa do parlamento alemão, presidida desde 2005 por Norbert Lammert (CDU). A legenda FDP não conseguiu eleger três representantes diretos (optei por usar o termo “representante direto”, mas alguns textos traduzem Abgeordnete para deputado ou parlamentar) por meio do primeiro voto nem alcançar 5% do segundo voto dos eleitores, ambos na Bundeswahl (em português, eleição nacional). Assim, a aliança CDU/CSU — Merkel é filiada ao CDU — se uniu ao SPD, um partido mais à esquerda, mas não tão esquerda quanto o Die Linke. E assim foi formada a Große Koalition (em português, “Grande coalizão”), também conhecida por GroKo. Como a Alemanha é uma democracia parlamentarista, o nome de Merkel para o cargo de chanceler foi proposto pelo presidente da Alemanha e aprovado — por causa da GroKo — pela maioria do Bundestag. Com o SPD na base governista e mais um mandato (2005, 2009 e 2013), a chanceler sugeriu ministros do novo aliado, o SPD, e também da aliança CDU/CSU.

Liberais ficam de fora do Bundestag

SPD apresenta seus ministros do novo governo alemão

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Em 2013, nas eleições para o Bundestag, os alemães tiveram direito a dois votos. Primeiro, eles escolheram um candidato do Wahlkreis (em português, “distrito eleitoral”) ao qual pertencem. São no total 299 distritos eleitorais espalhados na Alemanha. Em cada um vivem, em média, 250 mil pessoas. Neles concorrem os candidatos para receber o primeiro voto do eleitor. Candidaturas independentes são possíveis. Cada partido pode ter uma pessoa. Cada candidato faz propaganda para o partido e para ele, apresentando propostas que são importantes para a região. Quem tiver a maioria no distrito eleitoral — ou seja, só mesmo a pessoa mais votada — ganha um mandato direto e vai como representante para o Bundestag.

O segundo voto é considerado mais importante. Ele decide a relação no Bundestag. Quantas das 598 vagas no Bundestag vão ficar para cada partido? O eleitor não escolhe uma pessoa, mas sim uma Landesliste (é uma lista com candidatos estaduais do partido). Nesta lista constam os candidatos que o partido gostaria de enviar para Berlim. E aí depende da ordem. Quem estiver em cima vem primeiro. Levando em conta, por exemplo, a porcentagem de segundo voto do SPD no estado Niedersachsen, primeiro o assento é dado aos candidatos eleitos de cada distrito eleitoral durante o primeiro voto, ou seja, aos candidatos diretos. Embora cada distrito eleitoral só eleja uma pessoa, há vários distritos eleitorais dentro de um estado. Então, se o SPD conseguiu uma porcentagem que dá para levar 15 políticos para o Bundestag, supomos que seis tenham sido eleitos diretamente pelo primeiro voto. As nove vagas restantes são preenchidas, seguindo a ordem, por meio da lista com candidatos estaduais do partido.

Mesmo se o partido desse cara eleito diretamente não tiver conseguido alcançar 5%, ele vai para o Bundestag. E é por causa desses caras que o Bundestag acaba tendo mais assentos do que o previsto. Atualmente são 631 políticos.

O partido precisa ter, pelo menos, 5% do segundo voto (regra chamada Sperrklausel) ou ter ganhado em, pelo menos, três distritos eleitorais. Se tivesse conseguido ganhar em três Wahlkreisen, mesmo tendo menos de 5% do segundo voto, a porcentagem alcançada pelo partido com o segundo voto poderia levar ainda mais membros para o Bundestag. Por isso, apesar de 35 partidos da Alemanha terem participado das eleições de 2013, só CDU/CSU, SPD, Bündnis 90/Die Grüne e Die Linke fazem parte do 18º Bundestag.

Wie funktioniert die Bundestagswahl?

18. Bundestag

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Já para a Landtagswahl (podemos interpretar como uma eleição estadual), o eleitor também tem direito a dois votos. Primeiro, em um representante. E depois, em um partido. Em cada distrito eleitoral do estado sairá um candidato, sempre o mais votado. O segundo voto é importante para o partido colocar vários representantes no Landtag. Se tiver menos 5%, o partido não vai para o Landtag a não ser que algum candidato desse partido tenha sido o mais votado por meio do primeiro voto em algum distrito eleitoral.

Esses representantes eleitos decidem o Ministerpräsident (o que seria o governador). Depois, o Ministerpräsident escolhe o Landesminister. Os dois fazem parte do Landesregierung (em português, governo do estado). O Landesregierung envia um representante para o Bundesrat (enquanto o Bundestag é a câmara baixa do parlamento alemão, o Bundesrat é a câmara alta). Assim, o governo estadual tem representação em nível federal. O Ministerpräsident nomea, ainda, os Minister Staatsekretäre (secretários) com apelo dos representantes diretos.

Landtagsfilm

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Na Kommunalwahl (espécie de eleição municipal), também podem votar — e serem votados — cidadãos da União Europeia, contanto que estejam registrados naquela cidade há pelo menos três meses. A frequência da Kommunalwahl depende do estado, mas na maioria é a cada cinco anos. Além disso, a duração do mandato do prefeito varia de acordo com o estado. Em Baden-Württemberg, por exemplo, é de oito anos. Já no estado vizinho Bayern, o mandato dura seis anos. Outras variações também são possíveis.

O eleitor recebe uma folha para cada voto. Prefeito (que precisa ter mais da metade para ser eleito. Caso contrário, ele e o segundo mais votado se enfrentam no segundo domingo depois do primeiro turno para ver quem consegue mais votos e, portanto, ser eleito) ou Oberbürgermeister (dependendo do tamanho da cidade, o prefeito é subordinado a ele), Gemeinderat des Stadtrats (conselho municipal), Kreisräte e Landrat (representa os cidadãos de distritos eleitorais).

No caso do conselho municipal, por exemplo, vários candidatos serão eleitos. O eleitor pode se decidir por um partido, em vez de determinados candidatos. Isso significa que cada candidato do partido ganha um voto. Se não houver votos suficientes (a quantidade de votos consta no topo da folha), os primeiros da lista do partido recebem um voto cada um. Se o eleitor não quiser que algum candidato daquele partido receba o voto dele, ele pode riscar o nome desse determinado candidato. Ele pode, porém, escrever “1”, “2” ou “3” no espaço anterior ao nome do candidato, sinalizando quantos votos ele quer dar àquela pessoa. Os candidatos não precisam ser do mesmo partido/da mesma lista.

WissensWerte: Landtagswahlen und Kommunalwahlen Brandenburg

Kommunalwahlen in Bayern 2014: Das Wahlrecht im Freistaat

Reprodução

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Se o eleitor já tiver planejado uma viagem ou tiver outro problema que o impeça de ir ao local de votação, ele pode votar por meio da Briefwahl (em português, voto por carta; voto por correspondência) até a sexta-feira antes das eleições — que sempre ocorrem no domingo, das 8h às 18h. Esse documento pode ser enviado pelo correio ou pode ser levado até o local de votação. A carta com o voto precisa chegar até as 18h do domingo de eleições, porque é quando a contagem começa. A votação por meio de carta existe desde 1957, quando 4,9% dos eleitores escolheram esse meio para a votação do Bundestag. Com o passar do tempo, porém, essa tem sido uma escolha mais frente. Nas eleições de 2013, 25% dos votos vieram foram por meio da Briefwahl.

Briefwahl-Unterlagen beantragen & ausfüllen

Na Alemanha, o voto não é computado por meio da urna eletrônica. Aqui o eleitor recebe uma carta em casa. Ali ele vê onde e quando pode votar. No dia, ele apresenta o documento de identificação e recebe o papel para o voto. Depois, vai para uma área protegida, da mesmo forma que a urna eletrônica no Brasil também tem a sua proteção, e marca com caneta o voto. Em seguida, ele deposita esse papel numa urna comum, onde outros votos já estão.

Curiosidade:
Irônico e subversivo, Die PARTEI quer chegar ao Parlamento alemão

Se você leu meu texto, mas achou tudo muito complicado:
Os partidos alemães e a constituição do Bundestag
Parlamentarismo com presidente simbólico

Texto com reproduções de conteúdo do Bundeszentrale für Politische Bildung

8. Transporte/Alemanha

A Prefeitura do Rio anunciou que a passagem de ônibus custará R$ 3 a partir do dia 8 de fevereiro. Atualmente o preço é de R$ 2,75. O valor da passagem de ônibus tinha chegado a R$ 2,95 no ano passado, mas acabou recuando com a insistência dos protestos de junho de 2013.

Foi publicado no Diário Oficial do Município desta quinta-feira (30) mudanças para alunos da rede pública e universitários cotistas ou bolsistas do ProUni, em caso de renda per capita menor de um salário mínimo (R$ 724). Segundo o decreto, os primeiros passam de 60 para 76 viagens grátis por mês. Os estudantes do ensino superior em questão, que antes pagavam meia passagem, têm direito a 76 viagens. Apesar disso, um evento do Facebook chamando para uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus, marcada para a próxima quinta-feira (6), já conta com a adesão de quase 10 mil usuários da rede.

Ônibus vai a R$ 3, e Prefeitura do Rio estende gratuidades

Prefeito Eduardo Paes estende passe livre a universitários para evitar protestos

Enquanto isso, outro ato contra o aumento de R$ 2,90 para R$ 3,20 na tarifa cobrada pela SuperVia está previsto para esta quinta-feira (30). Por enquanto, pouco mais de 2 mil usuários confirmaram a presença no Facebook. Já na terça-feira passada (28), jovens participaram do “Catracaço”o terceiro do tipo em oposição ao reajuste da passagemNa semana passada, o sistema de trens do Rio ficou 11 horas sem funcionar depois de uma composição derrubar um poste de energia, próximo à Estação de São Cristóvão. O secretário estadual de Transportes, Julio Lopes, foi fotografado rindo em conversa com o presidente da SuperVia, Carlos José Cunha. O Ministério Público pediu multa de R$ 2,1 milhões à empresa com petição “acerca das panes no sistema ferroviário ocorridas nos dias 22 e 24 de janeiro deste ano”

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Aqui em Kassel, na Alemanha, o atraso de 5 minutos da S-Bahn (também conhecido por Veículo Leve sobre Trilhos, VLT) para chegar ao destino já significa receber o dinheiro da passagem de volta. Se o atraso ocorrer depois das 20h, o cliente da S-Bahn pode pegar um táxi, cujo valor será reembolsado em até 25 euros (R$ 83). A empresa que opera a S-Bahn em Kassel é a Nordhessischer VerkehrsVerbund (NVV).

Quem estiver matriculado em escola tem desconto na NVV, principalmente, se tiver interesse no ticket anual. Já os universitários, ao pagarem a taxa semestral da Universität Kassel (261,11 euros ou R$ 865), podem usar o transporte público daqui (ônibus e S-Bahn) e, ainda, pegar trens regionais (ou seja, não é com ICE/IC) para outras cidades. Este é o único momento em que ele precisa desembolsar pelos estudos e pelo transporte. O estudante pode até morar em Göttingen, no estado Niedersachsen, e estudar em Kassel, no estado Hessen. Veja aqui o mapa com as possibilidades de deslocamento, lembrando que não há tarifa adicional a ser paga. Durante o trajeto, o estudante precisa somente mostrar a carteira de estudante da universidade.

O estudante da Universität Osnabrück, em Niedersachsen, paga mais na taxa semestral (aproximadamente 500 euros ou R$ 1.658). Por outro lado, há mais cidades incluídas na “zona livre” para universitários. Pode-se viajar com o trem regional para Bremen, Hannover, Braunschweig, Göttingen, Münster e Bielefeld, sendo as duas últimas no estado Nordrhein-Westfalen.

E a Alemanha não tem catraca. No ônibus, você entra pela porta do motorista e mostra o ticket a ele. Muitos nem olham. Quando estiver nas S-Bahn e U-Bahn (o nome que o metrô recebe por aqui), você valida o ticket diário na estação ou guarda o seu ticket semanal, mensal ou anual no bolso para mostrar em caso de controle. Caso você não tenha ticket durante a fiscalização, uma multa será aplicada. Atualmente a multa na Alemanha é de 40 euros (R$ 132). Quando estive em Viena, na Áustria, o valor chegava a 103 euros (R$ 341). Na Espanha, a punição é de 100 euros (R$ 331). Já a Suíça cobra 90 francos (73 euros ou R$ 243) pela penalidade, mas já estuda aumentar para reincidentes. A primeira vez sairia por 90 fracos, depois 130 francos (105 euros ou R$ 351) para, a partir do terceiro flagra, chegar a 160 francos (130 euros ou R$ 432).  

Comentário:
A Prefeitura do Rio anunciou que a passagem de ônibus vai custar R$ 3 a partir do dia 8 de fevereiro. Atualmente o preço é de R$ 2,75. Por outro lado, os alunos da rede pública passam a ter 76 viagens gratuitas, em vez de 60. Os universitários cotistas ou bolsistas do ProUni também conquistaram o benefício. Ambos grupos precisam ter renda per capita de até um salário mínimo. Já na Alemanha, o estudante do ensino superior paga a taxa semestral da universidade e, assim, garante livre acesso a ônibus, VLT e metrô dentro da própria cidade. Esse pagamento inclui os estudos, entre outros, e fica longe de ultrapassar o valor da mensalidade da PUC-Rio. Ele também pode pegar trens regionais e ir, por exemplo, de Osnabrück para Göttingen, uns 200km distante, só precisando mostrar a carteira de estudante. Na semana passada, o sistema de trem do Rio ficou 11 horas fora do ar. O Ministério Público pediu multa de R$ 2,1 milhões contra a SuperVia. Aqui em Kassel, na Alemanha, caso a S-Bahn atrase 5 minutos para chegar ao destino, o cliente pode pedir o dinheiro de volta. Se já passar das 20h, ele pode fazer o trajeto de táxi, cujo valor será reembolsado em até 25 euros (R$ 83).

7. Sustentabilidade/Alemanha

A Comlurb retirou 40 toneladas de lixo das areias da Praia de Copacabana na manhã desta terça-feira (21), dia seguinte ao feriado de São Sebastião. Para chamar atenção das pessoas, o entulho foi deixado na altura da Rua Constante Ramos, também em Copacabana, como mostrou a foto do jornal O Globo. Entre os materiais recolhidos, nota-se na imagem, claramente, muitas sacolas e garrafas plásticas.

A lei estadual 5.502/09 já deveria ter mudado esse cenário se tivesse “colado”. Segundo o texto, “a cada cinco itens comprados no estabelecimento, o cliente que não usar saco ou sacola plástica fará jus ao desconto de no mínimo R$ 0,03 sobre as suas compras”. Ainda há outra opção que garante 1kg de arroz ou feijão à pessoa que apresentar 50 sacos ou sacolas plásticas no local. Caso os produtos não estejam disponíveis, a troca pode ser feita por 1kg de qualquer outro produto que faça parte da cesta básica.

Infelizmente, os operadores de caixas são orientados para não dar o desconto. Sempre precisei cobrar os R$ 0,03 a cada cinco produtos. Alguns funcionários não sabiam nem do que se tratava e tinham de chamar o superior. Em todas as vezes, ocorreu demora para eu conseguir o desconto. A lei previa a substituição das sacolas plásticas pelas ecológicas, o que definitivamente não ocorreu.

Enquanto o cidadão fluminense se esforça para cobrar os centavos por não usar sacos ou sacolas plásticas, o sistema funciona de forma completamente diferente em vários países. Na Espanha, República Tcheca e Alemanha, as sacolas plásticas e/ou ecológicas são compradas por alguns cents nos supermercados. Nas lojas de roupas e semelhantes, nada é cobrado. Na primeira foto, por exemplo, o supermercado Lidl me cobrou 3,90 CZK (0,14 euro ou R$ 0,44) por cada sacola. Já na segunda foto, a “bolsa reutilizável” na cadeia espanhola El Corte Inglés saiu por 0,05 euro (R$ 0,16).

No Brasil, a reciclagem ainda engatinha. Pouco foi feito nos últimos anos. Bem mais à frente está a Alemanha. Se o consumidor quer comprar uma garrafa PET de água, ele paga 0,19 euro (R$ 0,60) pelo produto e mais 0,25 euro (R$ 0,80) pela embalagem. Ou seja, no caixa ele vai pagar 0,44 euro (R$ 1,40). Depois que ele beber toda a água, ele volta à rede de supermercado e devolve a embalagem. Depois de inserir a garrafa numa máquina que lê o código de barras do produto, ele pega um cupom. Com esse papelzinho, ele recebe de volta o valor que pagou anteriormente.

As embalagens que têm valor são chamadas de Pfandflasche. Em alemão, Flasche significa garrafa, e Pfand, depósito. Se for uma lata de alumínio, provavelmente o preço da embalagem também será 0,25 euro (R$ 0,80). Garrafas de vidro costumam custar 0,08 euro (R$ 0,25). Já garrafas plásticas menores ficam por volta de 0,10 euro (R$ 0,32) ou 0,15 euro (R$ 0,48). E não só supermercados cobram o Pfandflasche! Na universidade onde fiz um intercâmbio, eu comprava um café numa máquina e pagava, se não me engano, 0,80 euro (R$ 2,56). Após beber, eu colocava o copo de papelão na máquina ao lado, que me dava 0,10 euro (R$ 0,32).

Como reconhecer? As embalagens retornáveis têm um selo com seta, e os supermercados ainda colocam embaixo do preço o valor do Pfand. Nem todas as garrafas ou latas participam disso. Essas exceções são as Pfandfrei (livre de Pfand, sem Pfand). Abaixo fotos tiradas no Lidl de Frankfurt, na Alemanha.

6. Memorial/Europa

Este ano traz duas efemérides importantes para a construção da memória. Cem anos atrás começava a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Cinquenta anos atrás começava a ditadura militar (1964-1985) no Brasil. São duas datas que devem ser lembradas para erros semelhantes não ocorrerem no futuro. Como mostrou recentemente a matéria Tocando as feridas em busca da redenção, publicada neste domingo (19) no jornal O Globo, vítimas da ditadura brasileira podem procurar a Clínica do Testemunho para “aprender a lidar com o que viveram”. Segundo o texto, o serviço funciona desde abril de 2013 e tem unidades em São Paulo, Rio, Recife e Porto Alegre. “Para mim, foi importante falar. Colocar o que eu sofri em perspectiva. Sair do isolamento é bom porque mostra para as pessoas hoje em dia os efeitos devastadores daquela repressão que sofremos”, afirmou o publicitário e ex-faz tudo da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Emilio Ulrich.

O tema do bloco Cordão da Bola Preta, o mais antigo do Rio, será “Ditadura nunca mais”. Já a Editora José Olympio relança o livro Reminiscência do sol quadrado, de Mário Lago. A obra conta a prisão do ator e compositor no dia do início da ditadura militar. O professor e jornalista Roberto Sander se concentra em 1964 — O verão do golpe, sobre os três meses que antecederam o golpe. O jornalista Carlos Chagas fica por conta de Os golpes dentro do golpe: 1964-1969, cujo lançamento do primeiro volume será este mês. E, por último, o fotógrafo Evandro Teixeira expõe fotos tiradas nos anos 1960, até o dia 27 de fevereiro, no Centro Cultural Justiça Federal.

A Alemanha teve um papel grande e esteve diretamente envolvida tanto na Primeira Guerra Mundial  (1914-1918) quanto na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Não à toa o assunto não foi esquecido por aqui. Com os 100 anos da Grande Guerra, revista e jornais já se encarregaram de trazer mais material sobre o momento. Novos lançamentos e reedições de livros marcantes sobre o período ganharam lugar de destaque nas livrarias.

Cem anos depois, mídia internacional dá destaque à Primeira Guerra Mundial

Diários da Primeira Guerra Mundial são disponibilizados na internet

O forte da Alemanha, porém, é outro. São os memoriais da Segunda Guerra Mundial que provam a importância do conhecimento e da transparência sobre o passado como fator essencial para progredir e evitar falhas. Em Berlim, o turista esbarra em ruínas a cada instante. Além da História no meio da rua, não faltam exposições, museus, filmes e memoriais reconhecendo os erros. Memorial do Campo de Concentração Sachsenhausen, Museu da DDR, Museu da História alemã, Memorial Sinti e Roma, Topografia do Terror, Museu Judaico de Berlim, Memorial dos Judeus Assassinados na Europa, entre outros.

Abaixo fotos do Campo de Concentração Sachsenhausen:

Não só na capital a necessidade da memória é reforçada. Há memoriais na Alemanha toda. Mesmo em cidades pequenas que quase não recebem turistas (veja uma lista de memoriais no estado de Baden Württemberg). E, nos campos de concentração da Alemanha, a entrada é gratuita. Também não é preciso pagar um guia ou andar em grupo. Cada pessoa pode ter o seu tempo, contanto que obedeça aos horários de funcionamento do local. A ida aos campos de concentração Sachsenhausen (próximo a Berlim) e Dachau (próximo a Munique) ainda é facilitada pelo transporte público. Nos dois casos, precisa-se pegar uma S-Bahn até a cidade — Oranienburg e Dachau, respectivamente — e, então, pegar um ônibus que deixa em frente ao memorial.

Abaixo fotos do Campo de Concentração Dachau:

Enquanto a Alemanha mostra saber a importância de falar sobre o assunto, a Áustria, pátria do Führer Adolf Hitler, parece não ter aprendido a lição. O campo de concentração mais famoso do país, Mauthausen, desafia o turista que busca informações sobre o passado. Mesmo sendo localizado a duas horas de Viena e somente a 20 minutos de Linz, capital do estado Alta Áustria, não há ofertas de empresas de turismo para visitar o campo de concentração. No site, constam indicações para chegar ao local usando trem e ônibus. Pelo conteúdo na internet, eles parecem ter se interessado mais em investir no estacionamento. “Desde o início de julho 2006, mais vagas para estacionar ônibus ou carros dos visitantes estão disponíveis. O estacionamento tem capacidade para 50 ônibus, assim como para 70 carros. Para evitar campistas, estacionamento permanente e/ou utilização indevida do estacionamento, ele foi equipado com um sistema de cancela”. Outras opções são difíceis de encontrar — a não ser que a pessoa tenha um carro ou queira se submeter a preços estratosféricos.

A estação de trem da cidade Mauthausen é bem simples. Não há sequer papel ou algum sinal preso à parede. Lá a pessoa precisa pegar o único ônibus que para na estação. Depois, salta-se no meio da cidade, num lugar sem qualquer indicação para qual sentido andar. No meu caso, o motorista do ônibus — em alemão com sotaque austríaco — disse para eu seguir em frente e começar a subir a montanha. Deserta, a cidade não tem infraestrutura e poucos moradores ficam fora de casa no inverno de 5º. Com a ajuda de uma senhora que saía de casa para jogar o lixo fora — uma das cinco pessoas que vi num total de 1h30 em Mauthausen –, consegui chegar à placa “KZ – Memorial Mauthausen”, que apontava para a placa “Erinnerungsstraße” (em português, “Rua da Lembrança”). O nome da rua só pode ser irônico. Andei mais, na grama, com medo de ser atropelada por um carro qualquer, e só vi grama e árvores. Após mais de 30 minutos sozinha, resolvi voltar e descobrir uma forma viável de chegar ao campo de concentração, já que ali eu corria risco de ser estuprada por qualquer pessoa que parasse o carro. Em Linz, a moça da OEBB, empresa de trem austríaca, afirmou que “ou você pega trem, ônibus e depois anda ou você paga 40 euros num táxi”. Realmente, a pátria de Hitler não quer se lembrar do passado.

Abaixo fotos da tentativa de chegar ao Campo de Concentração Mauthausen:

Assim como Mauthausen, os campos de concentração Auschwitz/Birkenau (em Oświęcim, Polônia, perto de Cracóvia) e Terezín (em Terezín, República Tcheca, perto de Praga) cobram entrada para a visita. Tanto na Polônia quanto na República Tcheca, porém, os turistas que visitam a cidade grande mais próxima são convidados para ir aos campos de concentração. As empresas cobram um valor que já inclui o transporte e a entrada no memorial, sem precisar enfrentar fila. Em Terezín, 50 CZK (1,80 euros ou R$ 5,70) ainda são cobrados na entrada para quem deseja fotografar, que recebe um adesivo para colar na blusa. Nos dois países, um guia oficial do campo de concentração fica encarregado pelo grupo, que precisa sempre acompanhá-lo.

Abaixo fotos do Campo de Concentração Auschwitz/Birkenau:

Apesar da restrição, o campo de concentração Auschwitz/Birkenau estava completamente lotado quando estive por lá, no verão de julho de 2013. Já Terezín estava às moscas no inverno de janeiro de 2014. Fora o meu grupo de seis pessoas, só vi outro grupo pequeno durante as duas horas nas quais estive por lá. Faltam informações e infraestrutura aos montes em Terezín. Os objetos não têm placas — nem sequer em tcheco ou inglês — explicando o porquê de estar ali. O visitante só consegue absorver conteúdo por meio do guia, o que pode ser um problema. E essa é uma das principais vantagens dos memoriais da Alemanha, pelos quais o turista pode andar com independência, sem precisar de um intermediário, tendo à disposição diversas informações nos mais variados meios — de livros a salas multimídias.

Abaixo fotos do Campo de Concentração Terezín:

Comentário:
Passaram-se 50 anos desde o começo da ditadura militar (1964-1985) no Brasil. Passaram-se 77 anos desde o começo do Estado Novo (1937-1945), durante a Era Vargas. Faltam, no entanto, memoriais sobre os regimes autoritários no país. O Brasil não parece interessado em guardar na memória erros para não cometê-los novamente no futuro. O local onde funcionava a sede do DOI-Codi, centro de tortura da ditadura militar, na Tijuca, Zona Norte do Rio, continua sendo usado como Batalhão da Polícia do Exército e não virou um Centro de Memória. Não basta uma enxurrada de livros sobre o tema em 2014. É preciso muito mais do que isso. Espero que mais documentos da época venham à tona. Espero que mais filmes sejam produzidos e exibidos pela TV aberta. Espero que mais centros, museus e memoriais se espalhem pelo Brasil. Espero que as aulas de História possam se extender para esses locais, onde os estudantes possam entender tudo de uma maneira mais dinâmica, multimídia e atual. Espero que os turistas se interessem pelo assunto e queiram visitar durante a Copa e as Olimpíadas. Espero que exemplos como o Museu da Resistência de São Paulo se multipliquem.